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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

[leituras] Milagreiro



Título: Milagreiro
Argumento: André Oliveira
Desenho: André Caetano, Filipe Andrade, Nuno Plati, Ricardo Cabral, Ricardo Tercio, Ricardo Drumond, Jorge Coelho
Páginas: 50
Ano: 2015

No Amadora BD vi algumas das ilustrações deste livro e a versão a preto e branco do que vemos na capa deixou-me bastante curiosa para ver o que haveria mais lá por dentro.

Não sabia que a estrutura do livro era diferente do normal, com uma grande equipa em poucas folhas. E o resultado final é interessante. Cada capítulo tem uma mão diferente, seguindo a história que é contada ao longo do livro, sem interrupções para além das estéticas.

Entre capítulos há também divisões, assinadas por Drumond que me faziam parar um bocadinho a olhar para elas. Pouca cor, essencialmente preto e branco, mas coisas muito interessantes.

As artes em cada um dos capítulos são completamente diferentes, como é normal, e gostando mais de uns do que de outros o geral é uma obra interessante, bonita, diferente mas que ganha nessa diferença. O choque de um capítulo para o outro às vezes é muito grande, com traços mais rectos, ou cores mais garridas, mas uma vez passadas as primeiras páginas a coisa assenta sem dificuldade.

A história em si é sobre "fazedores de milagres", ou seja, num mundo em que há descrença em crescendo há a necessidade de voltar a chamar a atenção, voltar a mostrar que a crença faz sentido, mesmo que para isso se falsifiquem as ditas provas.

Um história curiosa, não? Depois da base vem muito mais, desde mortos não mortos a um ambiente em modo algodão doce alucinogéno... A história tem contornos peculiares mas torna-se uma leitura engraçada.

Se há coisa que vale a pena de ver nestes livros é que a BD não está morta e está a ter muita coisa a sair, muita gente a fazer coisas, e coisas que valem a pena. Se o caminho que seguem agora é o melhor ou não, se continuará assim ou não, isso não sei, mas sei que é bom de ver que ainda há muita gente a ter ideias e a fazer coisas. Só assim é que podem aparecer obras com grande qualidade.


segunda-feira, 15 de junho de 2015

[leituras] Crumbs

Título: Crumbs - An anthology of delicious comics by portuguese toast makers
Autores: André Caetano, Ana Matias, André Oliveira, Bernardo Majer, David Soares, Fernando Dordio, Francisco Sousa Lobo, Inês Galo, Joana Afonso, Mário Freitas, Nuno Duarte, Osvaldo Medina, Pedro Cruz, Pedro Serpa, Ricardo Venâncio, Sérgio Marques, Zé Burnay
Páginas: 144
Ano: 2014

Tanta gente junta num livro tão minúsculo. É que é incrivelmente pequeno. Eu por vezes pensava que o ia perder porque isto é ínfimo e nunca na vida que olhando para ele diria que tinha tanta coisa.

As histórias são muito variadas em tudo o que se possa imaginar e como seria de esperar com tamanha diversidade de gente envolvida. A arte de quase todos os contos são absolutamente maravilhosas como aliás se tem notado no que anda a sair de BD nos últimos tempos, mas já no argumento não se pode dizer muita coisa. Contem uma história pessoas, deixem-se lá de mariquices!

Começamos com Light Bearer que brinca com a luz que se segue tanto na morte como no nascimento. Anda por ali a saltar de momento em momento numa vida e a mostrar como tudo acaba por ser cíclico e repetitivo. Achei que precisava de mais coerência, tem uma ideia boa mas depois o fio que tenta seguir está muito dividido, com falhas e torna a história confusa. As ilustrações estão engraçadas, gosto do envelhecer que as personagens levam.

Tunnels deu-me a conhecer uma nova música, Arcade Fire, do mesmo nome, que ainda por cima não gostei. Eu li a história e estava a soar-me a estranho, havia qualquer coisa que não batia certo. Ver que era mesmo a música que o tipo vai a ouvir fez com que as coisas encaixassem melhor. É engraçada mas sinceramente não me prendeu. Os desenhos estão giros, gosto das cores especialmente mas acompanham o estilo da história não me tendo chamado particularmente a atenção.

David Soares aparece aqui com Pedro Serpa tal qual como em Palmas para o Esquilo e isso deixou-me de pé atrás. Esse livro foi uma desilusão completa e pegar na mesma junção artística estava a deixar-me curiosa mas reticente. BD a preto e branco, The boar-man is getting married; or. leng tch'e, belo título não? Se alguém o perceber que me explique. Enfim, ilustrações cinco estrelas, sem tirar nem por, estranhas, simples mas com uma imagem forte, gostei. Argumento: estranho e estranho e não é do bom estranho. Um tipo com cabeça de javali que é maltratado e desprezado mas a história está de tal maneira contada que metade não se percebe. Tenho pena que David Soares em vez de contar a história para contar se meta por caminhos obscuros que não levam a lado nenhum. Isso pode ser giro, pode tornar a coisa interessante mas não assim, isto é só abusar.


Orwell, the soviet cat foi o título que mais me cativou e estava com bastante curiosidade por ser obra de Mário Freitas do qual tenho o SuperPig à espera há demasiado tempo! A história é mais uma vez algo meio estranho que parece que fica sem contexto. É pena porque as ilustrações são porreiras e aquilo tem ar de dar coisas giras. Mas falta ali história.


De seguida Young Enlil goes to hell é uma história de família sobre, suspense, How I Met Your Mother. Sim, é isso mesmo. Tem uns desenhos divertidos e coloridos com uma história essencialmente engraçada no momento em que se lê:

"You heard wrong... I am here... ... ... to kick your ass!"

Rio-me sempre quando fazem coisas destas. Mas enfim, mais uma vez nada de especial.

The Green Pool mais introspectivo e filosófico, demasiado verde para a minha pessoa, com uma história de coisas que caem em piscinas. Meh.

Low Battery é capaz de ter sido o que mais gostei. Um tipo é enterrado vivo e vê-se obrigado a pensar em quem é que ele pode ligar para o ir buscar. Torna-se uma história engraçada e triste ao mesmo tempo mas que é tão simples e porreirinha que até destoou dos outros contos. E obrigada por isso, diga-se!

Hanging Garden é estranho e estranhamente interessante. Acompanhamos o crescimento de um jardim peculiar, deixemos assim. Ilustrações bastante bonitas e muito interessantes.

Ick! vida de palhaço nem sempre é fácil mas quando se arranja um amigo tudo é melhor. Uma coisa simples, curiosa mas não podia ter tido mais um bocadinho de sumo.

In clouds é fofo, vá. Às vezes é preciso esperar um bocadinho mas as coisas chegam e ficam bem melhores. Principalmente com uma casa na árvore, se tivesse uma até este livro se lia melhor!

Omega  tinha potencial na história que conta. Como é que um criador vê a sua personagem ao fim do imenso tempo que tem de a desenhar e pensar como ela? Eu desta história tirava um livrinho, isto bem explorado tinha pano para mangas. No espaço pequeno deste Crumbs não se torna assim nada de mais.

Walpurgis sinceramente? Esqueçam história! Isto vale pelas ilustrações que são badass e maravilhosas e tudo o resto é treta, mega pequenino mas lindíssimo. 

E é isto. Pequeno e bem espremido com muito pouco sumo. Os ilustradores estão praticamente todos de parabéns, óptimos trabalhos, em termos de argumento achei que ficou muito aquém. Muitas tinham ali matéria para coisas mas ou pelo espaço reduzido ou sei lá porquê a coisa não resultou muito bem.

Ainda assim, numa perspectiva geral tenho de confessar que gostei do livro. E se for coisas destas que se precisa para levar BD nacional mais para a frente então força nisso. Mas da próxima vez em formato 2.0, ok?